Sábado, 9 de Abril de 2011

Ataque a Santa Cruz de Macocola?

 

 

A CART 2731 foi destacada de Ambriz para a zona de Santa Cruz com o objectivo de dar protecção a uma companhia de Engenharia, que tinha a seu cargo a construção de uma picada (estrada em terra batida) entre Santa Cruz e a picada que ligava Quimbele a Quicua. 

 

Na picada que estava a ser construída existia uma ponte, sobre o rio Cugo, entre Santa Cruz e a Fazenda Lopes, a cerca de um quilómetro da vila, que tinha uma importância vital para a nossa Companhia e para a Companhia de Engenharia. Era a única via de acesso ao nosso acampamento, na Aldeia Capitão, e à frente de trabalhos da construção da picada.

 

Para evitar que a ponte fosse destruída e que ficássemos isolados no meio da mata era mantida protecção permanente naquele local. Para essa missão eram destacadas uma ou duas secções de um grupo de combate (um grupo de combate ou pelotão era constituído por quatro secções), conforme a disponibilidade de efectivos da CART 2731, que ali permaneciam, instalados em tendas de campanha, à espera que as horas passassem. 

 

 

A única distracção que tínhamos era o rio, que servia para nos refrescarmos e para pequenas brincadeiras. Era a este rio que os habitantes de Santa Cruz iam abastecer-se de água, quando a vila esteve cercada pelos terroristas, entre 15 de Março e o início do mês de Julho de 1961, a que se refere Reis Ventura, no capítulo Santa Cruz de Macocola do seu livro Sangue no Capim, escrito em forma de conto narrativo.

 

Dormíamos em tendas de campanha, semelhantes à que se vê na fotografia abaixo cedida amavelmente pelo António Andrade, ex-condutor da CART 2731, em cima de colchões de ar, que durante o dia serviam para dar uns passeios no rio, única forma de ocupar o tempo. E assim se iam passando os dias, monotonamente, até sermos substituídos. 

 

Estávamos em Outubro de 1971, já não posso precisar o dia. Eram cerca de 11 horas da noite. Ouviu-se um tiro na direcção de Santa Cruz. Passados mais alguns momentos começa um tiroteio infernal, com granadas de morteiro à mistura, que caíam muito próximo do nosso acampamento. Éramos pouco mais de meia dúzia de jovens militares, junto à ponte, em plena mata africana, isolados de tudo e de todos, sem sabermos o que se estava a passar. Uma coisa tínhamos a certeza, o ataque não se destinava a nós, devia ser um ataque a Santa Cruz. 

 

 

Ainda houve quem perdesse momentaneamente a calma, mas a serenidade voltou rapidamente. E em caso de ataque o que poderiam fazer meia dúzia de homens armados de G3 e um morteiro 60, sem puderem contar com o apoio imediato de mais ninguém (a CART 2731, única que nos poderia dar alguma ajuda, estava instalada a quase 20 quilómetros daquele local)? Assim, decidimos abandonar as nossas tendas e emboscar-nos na margem do rio, a cerca de 50 metros e aguardar a evolução dos acontecimentos. 

 

Passaram-se cerca de 30 minutos, 30 longos minutos, e o tiroteio terminou. Mantivemo-nos durante cerca de mais duas horas naquela posição, regressando depois às nossas tendas. O resto da noite foi passado em sobressalto, com vigilância redobrada, mas mais nada aconteceu. 

 No dia seguinte tentámos obter algumas informações sobre o ataque. Foi-nos dito que um sentinela avistou um guerrilheiro inimigo junto à pista de aviação, na orla da mata, disparou um tiro de aviso e, a partir de aí, gerou-se a confusão. Até o Comandante de uma Companhia de maçaricos (militares acabados de chegar da Metrópole), que tinha chegado recentemente a Santa Cruz, mandou instalar uma metrelhadora em frente do seu Posto de Comando, abrindo fogo indicriminadamente em todas as direcções. 

 

Valeu na altura um furriel “velhinho” (já com quase ano e meio de comissão) da CART 2731, que se encontrava casualmente em Santa Cruz, que conseguiu acalmar os ânimos e pôr fim ao tiroteio. Muitas das viaturas que estavam estacionadas no parque ficaram com os pneus e a chaparia furados pelos disparos da nossa tropa e o único sinal de ataque foi o guerrilheiro que o sentinela diz ter avistado junto à pista de aviação, a mais de duzentos metros de distância, às 11 horas da noite. 

 

É muito pouco provável que um sentinela tivesse conseguido identificar um guerrilheiro na orla da mata, a mais de duzentos metros de distância, às 11 horas da noite, com uma iluminação muito deficiente. Ainda hoje tenho muitas dúvidas que aquilo tenha sido um ataque. Mas que apanhámos um grande susto e corremos alguns riscos provocados pelo fogo da nossa tropa, principalmente pelas granadas de morteiro que caíam muito perto do nosso acampamento, isso é um facto. 

 

 

 Franquelino Santos

 Ex- furriel miliciano da CART 2731

 Angola 1971

publicado por Franquelino Santos às 10:34
link do post | comentar | favorito
20 comentários:
De Mário Pinelas a 25 de Abril de 2011 às 21:03
Quanto isto aconteceu eu estava "internado" no Hopital Militar Central de Luanda com uma hipotética mononucleose infecciosa...
De Mário Pinelas a 25 de Abril de 2011 às 21:07
Grandes sustos apanhei eu com o amigo Andrade a conduzir a sua Mercedes, muitas vezes a servir de rebenta minas e, pior ainda, quando conduzia um "burro do mato"... Obviamente que isto passou-se no início da comissão quando a inexperiência era maior...
De Julio Vilar Pereira Pinto a 17 de Junho de 2011 às 21:48
Ao ler este artigo sobre Santa Cruz lembro o tempo que lá passei em 68, estive lá 7 meses, nesse tempo Santa Cruz era um destacamento da Quicua. Eu embora pertencente à CART 1769 que estava sediada no Quimbele foi destacado para Stª Cruz por motivos operacionais.
Recordo as viagens a Sanza Pombo, passando por Macocola, fazer abastecimentos e o receio sempre que passava no morro de Santa Cruz. Recordo também as viagens à Quicua, no tempo da Cart1770 do meu Bart 1926. Estivemos em Sanza o comando e a CCS, a Cart 1769 no Quimbele com 2GC destacados no Cuango (meu destacamento) e um GC destacado na Cabaca. Isto passou-se de Novº 67 a Dezº 69. Estivemos sempre nesta zona. No nosso tempo a zona era calma. Lembro a fazenda do Lopes e do Saganha que era a Palmeira do Minho.
De Joaquim Marques a 24 de Julho de 2011 às 18:42
Caros amigos eu pertenci a companhia de caçadores 2606, Baqt. de caç.2889, estive em Quicua de Dezembro de 1969 a maio de 1971,estive muitas vezes em St cruz e a guerra esteve bem acesa, a partir dos fins de 1970, nesta regiao de St Cruz, e foi nesta regiao que o comandante da companhia 2606 pisou uma mina, ficando sem uma perna
De Alvaro Oliveira a 23 de Agosto de 2014 às 23:15
Caros amigos, obrigado por estas lembranças algumas boas outras menos boas mas!!!!! sempre com algumas saudades do tempo que já lá vai.
Eu estive em Santa Cruz 11 anos filho de um dos comerciantes daquela pequena povoação Sr. Garcia.
Não sei se se lembram nessa altura de uma pequena emissora de radio toda montada por mim, na altura estava a tirar o curso de electrónica e tinha-mos que inventar para passar o tempo.
cumprimentos para todos com muita saúde.
De Franquelino Santos a 26 de Agosto de 2014 às 10:57
Obrigado pelo seu comentário. Não me recordo do seu pai, apenas conheci um comerciante que era conhecido pela alcunha de "Arrobas" devido ao seu peso.
Estive cerca de 6 meses na zona de Santa Cruz mas sempre no mato, a dar protecção à abertura de uma picada, que passava pelo rio, Fazenda Lopes, Morro do Recuo e por aí fora.
Abraço
De Alvaro Oliveira a 26 de Agosto de 2014 às 21:21
Sr. Franquelino boa noite, pois o Aquiles Ferreira mais conhecido por Arrobas, a loja dele era em frente á nossa.
Na fotografia a onde esta o meu amigo o Leovegildo e o Barata a casa nas costas era a casa do Manuel Ferreira, do vosso lado direito um pouco mais a baixo no centro da rua era a onde se fazia o içar da bandeira e á vossa direita era a messe dos oficiais creio que a memória ainda não me atraiçoa.
Se o meu amigo não se empontar gostava de conversar um pouco consigo por telefone. Um abraço
De Franquelino Santos a 28 de Agosto de 2014 às 08:13
Bom dia,
Obrigado pela sua resposta. Terei muito gosto em falar consigo ao telefone, o meu contacto é 96 746 44 85
Abraço
De Joaquim Marques a 11 de Abril de 2017 às 19:49
também passei por Santa Cruz de 1969-1971, O senhor arrobas como era conhecido tinha o estabelecimento muito perto do quartel, e haviam la 2 meninas gémeas com cerca de 8 a 10 anos naquela altura
De Anónimo a 11 de Abril de 2017 às 21:08
Amigo Joaquim a casa do meu pai era mesmo em frente á do arrobas, as meninas eram as filhas do Ferreira, e eu na altura pouco mais velho era, nessa altura eu tinha lá uma pequena emissora de radio na qual tinha alguns militares a colaborar e creio que nessa altura a coisa estava bastante acesa em termos de guerra, obrigado por estas lembranças que ficam para sempre,
um abraço com amizade.
De Anónimo a 13 de Abril de 2017 às 12:44
sim, nessa altura as coisas estavam feias, mas so nas matas, porque dentro de Santa Cruz estava bem calmo, pois eu era operador de transmissões em Santa Cruz, e ate tinha fotos dessas 2 meninas que eram muito lindas, e mais acima havia la uma jovem com cerca de 20 anos, ficava quase encostada a cantina dos militares, estive ai cerca de 18 meses e tenho muitas fotos, mas não tenho nenhuma da vila de Santa Cruz, agradecia se alguém tivessem fotos da vila se me mandavam, e segundo comentários que vi aqui, os civis de Santa cruz abandonaram a vila na altura da independência, seria verdade, também sei que agora se chama Milunga, um abraço
De Anónimo a 13 de Abril de 2017 às 12:46
no comentário anterior me esqueci de me identificar, meu nome Joaquim Marques de aveiro
De Franquelino Santos a 20 de Abril de 2017 às 16:47
De facto enquanto estive na zona de Santa Cruz a vida naquela vila era muito calma. O mesmo já não se podia dizer quanto às matas que a envolviam e aos acessos à vila. Recordo-me nomeadamente da picada que ligava Macocola a Santa Cruz, mais a menos a meio caminho, onde havia uma zona a que chamávamos "Morro das Pedras" que assustava toda a gente que por lá tinha de passar. A picada era escavada na rocha, a meia encosta e não teria mais de 4 metros de largura. Ao nosso lado esquerdo erguia-se uma rocha a pique com mais de trinta metros de altura e à esquerda, também quase a pique, um precipício mais ou menos com a mesma profundidade.
Normalmente fazíamos aquele percurso, com cerca de 200 metros a pé e só os condutores seguiam nas viaturas.
Conta-se inclusivamente que já alguns militares tinham ali sofrido ataques só com pedras que eram empurradas do cimo do morro para a estrada.
Felizmente a minha companhia nunca teve qualquer problema naquele local.
Abraço
De Anónimo a 19 de Abril de 2017 às 14:13
Recordo-me perfeitamente, vcs eram 2 rapazes e o vosso pai, que se chamava o senhor Garcia, um abraço,
De Anónimo a 29 de Junho de 2017 às 15:30
me lembro perfeitamente, e se calhar ate seria eu um dos que estava no posto de radio em Santa Cruz, um abraço
De Franquelino Santos a 12 de Abril de 2017 às 22:30
Caro amigo,
Obrigado pela sua visita ao nosso blog, bem como pelo seu comentário.
Abraço
De Franquelino Santos a 12 de Abril de 2017 às 22:32
Boa noite,
Obrigado pela visita ao nosso blog, bem como pelo seu comentário.
Abraço
De Anónimo a 13 de Abril de 2017 às 22:42
Durante o tempo que estive em Santa Cruz, 1969-1971, me lembro de um comerciante, um senhor já de idade e tinha 2 filhos jovens, parece que eram da região de Viseu?
De Alvaro Oliveira a 14 de Abril de 2017 às 22:30
Sim era eu e o meu irmão o meu pai era o Sr. Garcia
parece que foi ontem mas o tempo vai passando somos de S. Romão, quanto a recordações são muitas de Santa Cruz agora Milunga as minhas saudações a todos os que por lá passaram tudo de bom e uma santa páscoa.
De Alvaro Oliveira a 14 de Abril de 2017 às 23:42
Também me lembrei agora que passei algum tempo no posto de transmissões que ficava nas costas da loja comercial do Galvão paralela com a loja do Sr.Poças, dei lá muito á manivela quando as batarias do radio já estavam a ficar sem carga, bons tempos meus amigos.

Comentar post

VISITE O SITE DA CART 2731

.Franquelino Santos

.Julho 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.pesquisar

 

.posts recentes

. 16º almoço-convívio da CA...

. 16º almoço-convívio da CA...

. 16º Convívio anual da CAR...

. Diário de um combatente -...

. Uma reliquia

. 13º almoço-convívio da CA...

. ENCONTRO ANUAL DA CART273...

. Alteração do endereço do ...

. O dilagrama

. Armamento capturado pela ...

.arquivos

. Julho 2019

. Abril 2019

. Outubro 2018

. Novembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Novembro 2014

. Julho 2014

. Maio 2014

. Julho 2013

. Junho 2013

. Janeiro 2013

. Outubro 2012

. Junho 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Outubro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Março 2009

. Julho 2008

. Maio 2008

. Setembro 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

.tags

. todas as tags

.Som

blogs SAPO

.subscrever feeds