Quarta-feira, 13 de Abril de 2011

Lutembo, 16 de Julho de 1970

Já lá vão quase 41 anos. Tínhamos chegado a Angola havia pouco mais de dois meses. O desembarque da CART 2731, em Luanda, tinha acontecido em 7 de Maio de 1970. Apesar do clima de guerra não ser propício a grandes festejos, o dia de aniversário de um camarada tinha de ser assinalado sempre. Não havia bolo de aniversário nem champanhe, mas havia sempre uma grade de “cucas” ou “nocais” (as marcas de cerveja mais conhecidas em Angola) para comemorar o evento. Desta vez o aniversariante foi o furriel Otílio Pinguinha Caliço (atrás da grade de cerveja).

 

 

Quis o destino que, alguns meses depois, o Caliço sofresse um acidente com uma granada de mão, donde resultaram graves ferimentos, obrigando à sua evacuação para a Metrópole e ao fim prematuro da comissão de serviço em Angola.

 

Coube-me a mim substituí-lo. Apesar de ser meu conterrâneo (somos ambos algarvios, ele é natural de Loulé e eu de Albufeira) nunca cheguei a conhecê-lo, mas espero, ainda, encontrá-lo num dos almoços de confraternização que a CART 2731 realiza anualmente. O próximo irá realizar-se, no restaurante Austrália, em Faro, no dia 21 de Maio de 2011, bem perto de Loulé, sua terra natal.

 

Provavelmente a maior parte dos camaradas da CART 2731 que tiveram o prazer de conviver e compartilhar com o nosso amigo Caliço, bons e maus momentos em Angola, especialmente no Luvuei e no Lutembo, também nunca mais terão tido notícias dele.

 

Hoje, o mundo é uma aldeia global e a NET faz milagres. Casualmente, tomei conhecimento que o nosso amigo Otílio Caliço pratica atletismo, nos Tartugas, de Loulé. Assim, quero compartilhar esta notícia com todos os camaradas e amigos da ex-CART 2731.

 

 Fotografia obtida na NET de uma das competições em que participou. O Caliço é o primeiro da esquerda, na fila de baixo.

publicado por Franquelino Santos às 21:32
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Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

Luvuei - O que por lá deixámos ...

A presença dos nossos militares em Angola não teve como única finalidade combater os movimentos de libertação, que, na altura, eram considerados o nosso inimigo. Esse era um dos objectivos, mas a nossa missão era muito mais abrangente e tínhamos outras tarefas, porventura muito mais nobres, nomeadamente, o apoio às populações indígenas que, tal como nós, viviam isoladas na imensidão da mata, em acampamentos juntos dos nossos quartéis.

 

Sempre que essas populações tinham problemas de saúde era à enfermaria da “tropa” que recorriam, nunca lhes sendo negada ajuda. Normalmente, os problemas eram resolvidos localmente pelo médico, quando havia, e/ou pelos enfermeiros da “tropa”, mas quando surgiam situações mais complicadas, que não podiam ser resolvidas no local, era, ainda, a “tropa” que transportava os doentes, em viatura militar ou até mesmo de helicóptero, para uma vila ou cidade mais próximas, onde fosse possível dar-lhes a assistência médica de que necessitavam.

 

Quase todas as Unidades tinham um ou mais militares que nas horas vagas desempenhavam a função de professores e davam aulas não só à miudagem mas também a alguns graúdos, com vista a combater o elevado índice de analfabetismo que existia em Angola.

 

Por todo o interior de Angola, os militares construíram muitas escolas, igrejas, estradas, pontes e um sem número de melhoramentos que contribuíram para o melhoramento das condições de vida das populações indígenas que viviam isoladas.

 

No Luvuei, os militares da CART 2731 não fugiram à regra e, embora não tenham deixado grandes obras materiais (apenas uma estátua a assinalar a nossa passagem), deixou amigos. O seu trabalho pautou-se sempre por um apoio efectivo às populações nativas, designadamente na assistência médico-sanitária. Talvez isso explique o motivo de nunca termos tido grandes problemas durante a nossa permanência naquela zona, apesar de ser muito perigosa, com a guerrilha muito activa. É que os guerrilheiros dos movimentos de libertação sabiam distinguir quem tratava bem ou hostilizava as populações locais, que no fim eram os seus familiares.

 

A C.CAV 3517 que esteve no Luvuei algum tempo depois da CART 2731, entre Abril de 1972 e Novembro de 1973, deixou obra mais visível. Construíram a igreja, que vemos na imagem gentilmente cedida pelo Carlos Ferreira, que pertencia àquela Companhia.

 

 

 

Vi há dias no blog LUANDA – MAPUTO BY BICYCLE, de Pedro Fontes, que daquela igreja restam apenas as ruínas.

 

 

De acordo com a informação que consegui obter de fonte que considero fidedigna, a igreja foi destruída pouco tempo depois do 25 de Abril de 1974 pelos próprios angolanos aquando da guerra fratricida, que após a saída da tropa portuguesa, opôs os vários movimentos ditos de libertação de Angola. 

 

Como esta, quantas obras, porventura bem mais importantes para o bem-estar dos angolanos, terão sido destruídas?

Franquelino Santos ex-Furriel Miliciano da CART 2731 Angola, 1971

publicado por Franquelino Santos às 20:26
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Sábado, 9 de Abril de 2011

Ataque a Santa Cruz de Macocola?

 

 

A CART 2731 foi destacada de Ambriz para a zona de Santa Cruz com o objectivo de dar protecção a uma companhia de Engenharia, que tinha a seu cargo a construção de uma picada (estrada em terra batida) entre Santa Cruz e a picada que ligava Quimbele a Quicua. 

 

Na picada que estava a ser construída existia uma ponte, sobre o rio Cugo, entre Santa Cruz e a Fazenda Lopes, a cerca de um quilómetro da vila, que tinha uma importância vital para a nossa Companhia e para a Companhia de Engenharia. Era a única via de acesso ao nosso acampamento, na Aldeia Capitão, e à frente de trabalhos da construção da picada.

 

Para evitar que a ponte fosse destruída e que ficássemos isolados no meio da mata era mantida protecção permanente naquele local. Para essa missão eram destacadas uma ou duas secções de um grupo de combate (um grupo de combate ou pelotão era constituído por quatro secções), conforme a disponibilidade de efectivos da CART 2731, que ali permaneciam, instalados em tendas de campanha, à espera que as horas passassem. 

 

 

A única distracção que tínhamos era o rio, que servia para nos refrescarmos e para pequenas brincadeiras. Era a este rio que os habitantes de Santa Cruz iam abastecer-se de água, quando a vila esteve cercada pelos terroristas, entre 15 de Março e o início do mês de Julho de 1961, a que se refere Reis Ventura, no capítulo Santa Cruz de Macocola do seu livro Sangue no Capim, escrito em forma de conto narrativo.

 

Dormíamos em tendas de campanha, semelhantes à que se vê na fotografia abaixo cedida amavelmente pelo António Andrade, ex-condutor da CART 2731, em cima de colchões de ar, que durante o dia serviam para dar uns passeios no rio, única forma de ocupar o tempo. E assim se iam passando os dias, monotonamente, até sermos substituídos. 

 

Estávamos em Outubro de 1971, já não posso precisar o dia. Eram cerca de 11 horas da noite. Ouviu-se um tiro na direcção de Santa Cruz. Passados mais alguns momentos começa um tiroteio infernal, com granadas de morteiro à mistura, que caíam muito próximo do nosso acampamento. Éramos pouco mais de meia dúzia de jovens militares, junto à ponte, em plena mata africana, isolados de tudo e de todos, sem sabermos o que se estava a passar. Uma coisa tínhamos a certeza, o ataque não se destinava a nós, devia ser um ataque a Santa Cruz. 

 

 

Ainda houve quem perdesse momentaneamente a calma, mas a serenidade voltou rapidamente. E em caso de ataque o que poderiam fazer meia dúzia de homens armados de G3 e um morteiro 60, sem puderem contar com o apoio imediato de mais ninguém (a CART 2731, única que nos poderia dar alguma ajuda, estava instalada a quase 20 quilómetros daquele local)? Assim, decidimos abandonar as nossas tendas e emboscar-nos na margem do rio, a cerca de 50 metros e aguardar a evolução dos acontecimentos. 

 

Passaram-se cerca de 30 minutos, 30 longos minutos, e o tiroteio terminou. Mantivemo-nos durante cerca de mais duas horas naquela posição, regressando depois às nossas tendas. O resto da noite foi passado em sobressalto, com vigilância redobrada, mas mais nada aconteceu. 

 No dia seguinte tentámos obter algumas informações sobre o ataque. Foi-nos dito que um sentinela avistou um guerrilheiro inimigo junto à pista de aviação, na orla da mata, disparou um tiro de aviso e, a partir de aí, gerou-se a confusão. Até o Comandante de uma Companhia de maçaricos (militares acabados de chegar da Metrópole), que tinha chegado recentemente a Santa Cruz, mandou instalar uma metrelhadora em frente do seu Posto de Comando, abrindo fogo indicriminadamente em todas as direcções. 

 

Valeu na altura um furriel “velhinho” (já com quase ano e meio de comissão) da CART 2731, que se encontrava casualmente em Santa Cruz, que conseguiu acalmar os ânimos e pôr fim ao tiroteio. Muitas das viaturas que estavam estacionadas no parque ficaram com os pneus e a chaparia furados pelos disparos da nossa tropa e o único sinal de ataque foi o guerrilheiro que o sentinela diz ter avistado junto à pista de aviação, a mais de duzentos metros de distância, às 11 horas da noite. 

 

É muito pouco provável que um sentinela tivesse conseguido identificar um guerrilheiro na orla da mata, a mais de duzentos metros de distância, às 11 horas da noite, com uma iluminação muito deficiente. Ainda hoje tenho muitas dúvidas que aquilo tenha sido um ataque. Mas que apanhámos um grande susto e corremos alguns riscos provocados pelo fogo da nossa tropa, principalmente pelas granadas de morteiro que caíam muito perto do nosso acampamento, isso é um facto. 

 

 

 Franquelino Santos

 Ex- furriel miliciano da CART 2731

 Angola 1971

publicado por Franquelino Santos às 10:34
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